Antes, eu tive andado ferida. E isso é só o começo. Depois, bem depois, você me diria que nosso encontro não foi ocasional. Eu ri, claro. Falei besteiras e brinquei, mas, no fundo, estava achando aquilo tudo muito lindo. Clichê, mas eu vinha prometendo por um bom tempo a mim mesma que nunca mais me atrairia por ninguém, como eu já lhe disse, foi um longo caminho pra curar aquela ferida; e aquela mesma casquinha que se reconstituiu, voltando a protegê-la, agora me protegia por inteira também. E assim seguimos: Eu fazendo você acreditar que eu era exatamente aquilo que você queria que eu fosse e você me cativando por ser exatamente aquilo que eu queria que alguém fosse. Clichê de novo. Só que você sumiu. Na verdade, não sei se foi você ou só a ocasionalidade que nos separou sem nem ao menos termos nos conhecido o suficiente para poder dizer que nos conhecíamos de verdade.

Essa sou eu parando com os meus joguinhos e me abrindo para você. Porque eu sinto curiosidade de te conhecer. Porque eu sinto saudade do que nós nem fomos. Olá estranho, gostaria de voltar, fazendo o favor?

fobia de.

- Engraçado. Nós ficamos junto tanto tempo… Eu nunca soube que você tinha esse medo assim. tão. tão… - qual era a palavra que ele procurava mesmo? intenso? irracional? forte? estúpido?

- Porque eu não tinha.

- Tinha. Mas com você eu simplesmente não tinha.

Era só segurar a sua mão que nós passávamos a contrastar com toda aquela multidão claustrofóbica que passava.

Estúpido isso, mas com ele - com você -, me sentia bem.

Seu rosto permaneceu inexpressivo e ela se sentiu um pouco envergonhada. Deveria continuar ou ele era só mais um babaca que não merecia saber disso? disso o quê? saber dela?

O que irritava-a, na verdade, era que tudo aquilo era verdade.

Uma vez, muito tempo antes do encontro, mas muito tempo depois da separação, chegou a ensaiar um poema (se é que ela mesma poderia chamar aquilo de poema, tamanho o nojo que sentia por tudo o que produzia) onde admitia que as ruas escuras tornavam-se tão inofensivas ao som do seu assovio irritante e nenhuma multidão nunca a fizera chorar quando suas mãos estavam entrelaçadas. Claro que depois de meia dúzia de versos, amassou o papel e jogou-o fora. E, com isso, desde então não tivera problemas. As palavras levaram embora tudo. Até quinze minutos atrás.

Riu nervosa. Controlou a respiração o máximo que pôde. Não sabe ao certo descrever se o que sentiu foi realmente um mini pânico ou se foi só uma imagem forçada que tentava passar sem querer. Em sua cabeça, gritava para si mesma parar, já estava parecendo uma idiota. Mas as lágrimas foram reais. Os olhos arregalados (que sabia, podiam ficar normais se ela quisesse) também não eram forçados. Controlou a respiração. Abraçou a si mesma e sorriu imaginariamente por já ter passado por toda aquela multidão. Aqueles braços se esfregando nela. Aqueles risos insultando seu humor. Um grito e virou para trás. Mas não podia continuar ali. Se desculpou e saiam da frente. Sozinha estava melhor. Fora conseguiria pensar. Fora pensou. Que ridícula ela era. Para de fazer cena, brigou. Sentia-se mal por ser daquele jeito, seria demais falar disso para alguém? julgariam dizendo que ela só queria ser diferente e que não tem ideia do que é uma fobia de verdade? talvez. ficou quieta consigo. seus pensamentos dando-lhe broncas e mandando recompor a postura. estava uma noite tão boa. Maldita fobia de multidão.

- Você nunca deveria deixar o seu quarto bagunçado. Ele é uma das coisas que mais diz sobre você.

Felícia virou de costas numa frieza incomum, Fernanda apoiou tristemente a cabeça sobre o ombro da mãe, Clara continuou a fitar, embora sem ler, o seu livro e Amanda puxou o edredon para tapar o rosto, escondendo-se da empregada. E as quatro, embora em lugares e situações diferentes, responderam igualmente:

- Bom… Talvez eu esteja me sentindo um pouco bagunçada agora.

- Você é mesmo a porra de um clichê né?

-Bom, vamos ser sinceros e admitir que a sua frase também não foi das mais criativas.

- Você acha que é diferente. Aquela típica história: você é só mais um viciado em fumaça, sono e solidão.

- Caio Fernando Abreu - ele rebateu sem desviar o olhar do horizonte.

Ela riu, com raiva. 

- Você, no final das contas, não tem nada de especial. Só mais um riquinho que lê alguns livros do Kafka - (na verdade, ela chutou o nome do primeiro autor que lhe veio à cabeça. onde ouvira falar dele?) - e se acha superior. Você acha que está envolto por pessoas doentias e superficiais, quando na verdade você é uma delas. Você acha que faz parte de uma coisa que você não é. Você não quer fazer parte de uma coisa que você é. Admita, Guilherme, você não sabe nada da vida e se acha especial por acreditar saber. Mas não. Você não sabe. Desculpe, mas você é só mais um. Desculpe, mas você acha que está fugindo de uma coisa quando na verdade não.

Olhar para ela, ele não olhou; Mas não piscou em momento algum enquanto as palavras eram cuspidas nele. O que ela queria fazer com aquilo? Que ele se sentisse um lixo? Pelo contrário, apenas sorriu. Não porque, numa daquelas histórias masoquistas, ela havia ganhado seu coração. Por isso, ela já tinha o mérito há muito tempo. Ele apenas sorriu porque, pela primeira vez, ela citara um autor do qual ele nunca lera nada.

capítulo do meio

Fez uma analogia: Inspirou seu hálito fresco. Sentiu o cigarro que, em algum lugar, ainda estava ali. Assim como ele que ainda.
A verdade é que: desde que concordaram nesse negócio de seguirem caminhos distintos, nenhum que ela beijava lhe parecia tão cheio de significado. Saber quais seriam seus próximos movimentos a confortavam; a rotina que ela tanto criticou nunca lhe fora tão satisfatória como agora. Como sentira a sua falta. Seria estupidez afirmar que soube que sentiria desde a primeira vez em que estiveram juntos e, mesmo assim, se envolveu? Vão fazer quantos anos já? ela cresceu. ele não.
Respirou.
Era bom sentir-se em casa. E ele também sorriu simples, todos sorriam, mas só o dele brilhava para.
- Não ia fazer aquilo, saíra de casa preparada para não piscar nenhuma vez. Mas o modo como ele parou de brincar com suas mãos e a maneira com a qual ele ficara triste (ela tinha certeza! - e sabia também que isso não era verdade. Só essa mania idiota de querer acreditar que, no final das contas, era sim, importante) a ganhou.
E cedeu. Sentindo-se, pela última vez (dessa vez é sério), em casa.